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Algumas coisas eu aprendi.
Doei mais da metade dos meus objetos.
Esvaziei as estantes, as gavetas, os armários, as prateleiras mais altas, durante dias.
Dormi e acordei no caos. 

Fui percebendo como o apego está ligado a ideia de, eventualmente, não ter. 
Percebendo que o que realmente importa não junta poeira. 
E quanto menos poeira, mais tempo.

Talvez essa nem tenha sido uma decisão externa, há necessidade de abrir espaço dentro.
Me esvaziei dos pertences como quem se esvazia do medo de não pertencer. 

Junto aos objetos esquecidos, me deparei com traumas distantes.
Joguei alguns fora. Outros, devolvi aos verdadeiros donos.
E os que fazem parte de quem sou, de alguma forma, guardei – com um certo orgulho.

O peso das caixas, a dificuldade em mover as coisas, o sentimento de inalcançável.
Dentro e fora. O que eu sinto: hoje até parece ao meu alcance.

As memórias encaixotadas como se significassem poder voltar no tempo. 
Será por/que (a)guardamos tantas coisas?

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Quanto mais coisas, menos espaço pra eu ser do tamanho que eu quiser.
Ocupar a casa com presença, encher as gavetas com o que me faz sentir algo bom, em alguns casos: vazio.

O vazio comporta imprevistos.

Tateando as memórias entendi que tudo é linguagem.
As óbvias letras largadas numa agenda de 2006 comunicam tão bem quanto a boneca empoeirada que deixou de dar corda sabe-se-lá-quando, ou a máquina de datilografia laranja, de letra cursiva, que meu avô mandou consertar porque eu queria muito.

A coleção de aviões. Os bules da minha avó. As trocentas latas de spray vazias.
Os perfumes antigos que têm um cheiro familiar e estranho ao mesmo tempo.

Parece que é a linguagem desses objetos que me lê.

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As melhores memórias não são tateáveis, e ainda assim, estão mais presentes que as coisas.

Por exemplo: meu pai, cheio das frases que piscam¹, aleatoriamente, na minha tela mental.

Uma das que eu mais gosto aparecia sempre no seguinte contexto: quando eu estava contando uma história, ou falando alguma coisa, e de repente esquecia o que eu queria falar, ele dizia “se fosse importante você lembrava”.

E eu ria.

Até esse recente processo de descoisificar² a vida eu achava que essa frase era apenas engraçada, mas me enganei copiosamente. Essa frase é mágica.

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¹coisas que piscam: expressão maravilhosa que aprendi com a queridíssima Marina do Laboratório de Criatividade, para se referir a situações em que lembramos com frequência de alguma coisa e a importância disso para os nossos processos.
²descoisificar: palavra maravilhosa, aprendida através do meu amigo instantâneo e escritor Maicon Moura, que indica qualquer ação de simplificação ou desembolamento de situações ou ideias, e quiçá pessoas, podendo também significar desfazer qualquer que seja a circunstância presente, por exemplo, escrever = descoisificar a mente.

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Como quem segue o coelho em busca de algo mágico, comecei a fazer listas dos objetos que eu lembrava.

Fiz das roupas, dos artigos de papelaria, fiz dos livros. Etceteras.

Levar a tal frase a sério não só fez com que o processo fosse mais prático, como me deixou mais alegre.

Antes, se o que me restava era contemplar pasmada as pilhas de caos espalhadas casa afora, refletindo quem eu penso que sou pra estocar tantos recursos majoritariamente inutilizados, ou, vagamente, me questionar quem iria dar cabo ao armazém aleatório dos objetos (des)colecionáveis da minha vida caso eu, subitamente, atravessasse o portal de desligamento do meu corpo físico, agora com as listas o cenário era bem diferente.

Eu não estava mais focando no que eu precisava me desfazer, e sim no que era importante guardar, usando a minha memória como critério de seleção.

Essa sacada melhorou até a minha rinite.

Idealmente esse espaço estaria reservado para que eu discorresse sobre a conclusão a respeito dessa história, mas é com muita tranquilidade que deixo com você.

Fico torcendo pra você guardar o que for importante, no contexto desse texto e da sua vida =)

Que possamos ser cada vez mais conscientes das nossas escolhas e daquilo que (a)guardamos. 

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